quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mesmo Outro




Inda é o mesmo o mundo, eu outro.
Entre os dois o mesmo escuro
véu de noite em brancos sonhos
do outro rosto que amarguro
como um rostro sob o couro.

Inda é a mesma vida, eu outro.
E entre dois uma incontida
sina de noite e de sono.
Mão assassina e ferida,
vivo da luz que me roubo.

Inda é o mesmo amor, eu outro,
não transponho nisso a dor
do vazio de mim ao outro:
sempre em novo a recompor
o ser – o outro é o mesmo, eu outro.

Santiago Villela Marques, In: Outro, 2008.

Palavras




Palavras para nomear o que não tem nome…
Sentimentos intensos demais para abrandar.
Registrar para tornar eterno o passageiro?
Escrever para apagar de mim o que não quero mais em mim?
Não inventaram ainda palavras exatas para sentimentos confusos.

Será essa a tarefa que me cabe nesta noite de lua cheia?
Relatar o que gostaria de viver?
Descrever a ânsia de vida que me consome e esvazia?
Anunciar aos quatro cantos o que eu nem bem sei?

Parece mais fácil viver que escrever…
Por que não viver?

Se as palavras bastassem,
Seria uma poeta de inclinação dadaísta
Pegaria palavras soltas, dispersas,
Ouvidas aqui e ali, como:

Escola, botina, trabalho, desconcerto, ombro, mensagem,
Pescaria, aniversário, celular, manutenção, mochila, buracos,
Música, sono, química, trator…

De um jeito ou de outro…
O poema nasceria
Talvez, se despertasse risos,
Eu perguntaria:
“Tá rindo de mim ou para mim?”

Marli Chiarani (Mulheres Reunidas - 2009)

Força Vermelha




 Às mulheres que são assim,
Além dos sapatos vermelhos,
Morangos,  amoras e cerejas,
fundamental a unha vermelha
E o vinho tinto!
Risos, preocupações
Fantasias também!
Se tocadas pela intensidade do vermelho,
É porque a vida pulsa nelas!
Tulipas vermelhas
Amam, sonham, sentem medo
e imensa vontade de serem felizes
Mulheres que, para além de qualquer paixão,
Têm paixão pela vida
São ousadas
Em círculos, choram ou cantam
Com ou sem violão
Inventam letras em harmonia com os desejos de seu coração.
De salto alto, suaves ou secas,
seguram a taça e brindam.

Marli Chiarani  (Vida versos Vida – 2011)

Inspiradora




Repare que é lua cheia
Lá no alto, toda prosa
Ela, tão cheia de poesia,
Meus pensamentos seduz.
Ilumina minhas vontades
Torna claros  meus desejos mais escuros
Faz de mim metáfora  cintilante
Caminho de leite no céu
 Via - láctea!

Marli Chiarani (Vida versos Vida - 2011)


Multidão Vazia




Pessoas andam apressadas
Quase se atropelam nas calçadas
Falta comprar
Falta pagar
Falta tempo
Faltam olhos atentos
Para a beleza do que não está à venda.

Pessoas andam preocupadas
Quase não enxergam quem passa
Desejam mais roupas
Desejam  calçados
Desejam  boa aparência
Desejam  sacolas e pacotes
E se consomem a si mesmas.

Pessoas andam largadas
Quase não vivem mais em união
Pretendem a forma perfeita
O emprego ideal
O carro dos sonhos
A casa mais bonita
E vão se soltando os laços
E ninguém mais se acha.

E saem todos à procura...
 Querem  comprar o que não há
Em vitrine alguma para vender!
Eternos consumidores insatisfeitos.

Marli Chiarani  (Vida versos Vida – 2011)